Debitar a dois dedos acordes na linha do jazz clássico num piano ou órgão, aplicar efeitos a um trompete (bright e scoop down), variar a amplitude e a altura das notas que seguem a estrutura harmónica da música, fazer apontamentos de big band, alterar estilos (classic, minor, bird e freeloader), tonalidades e batidas por minuto, gravar uma performance, exportá-la para um sequenciador e editor de partituras, ou ir buscar um acompanhamento para uma base ao iTunes e distribuí-la por vários músicos, são algumas das funcionalidades de GimmeDaBlues.
A aplicação para iPod, iPhone e iPad permite improvisar ou compor vários géneros de blues, mesmo que quem o faça não tenha quaisquer conhecimentos musicais.
Não havendo correspondência entre teclas e notas, um solista pode ser acompanhado por um quarteto virtual de jazz composto por piano e trompete, controlados pelo utilizador, e por baixo andante e bateria, gerados em tempo real.
“Geralmente, as pessoas chegam a um piano e não conseguem fazer música porque há uma série de elementos que têm de ser aprendidos. O GimmeDaBlues tem um carácter quase lúdico porque permite, de forma muito intuitiva, fazer música minimamente interessante, neste caso ligada aos blues e ao jazz, tirando partido das características do multi-touch do iPhone”, explica Rui Dias.
“Há já inúmeras ferramentas, desde sintetizadores virtuais a controladores. Esta aplicação tem uma categoria diferente pela inteligência artificial embutida. Toda a informação de acordes, a estrutura harmónica já está introduzida e a ação do utilizador vai-se cruzar com voicings, harmonia, posicionamento rítmico.”
Simples e intuitiva, a aplicação criada pela Kinetic venceu a quarta edição do Prémio Zon Criatividade em Multimédia na categoria Conteúdos e Aplicações Multimédia.
Dos geradores inteligentes de ritmo e melodia aos rastreadores de batidas, ambos integrados no projeto ToolBox, a partir do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto a equipa procura desenvolver sistemas dinâmicos de composição musical ligados a interfaces controladas pelos gestos, e que possam ser aplicados em arte eletrónica ou entretenimento digital. Para além de 30 mil euros, o grupo foi contemplado com uma bolsa de investigação nos Estados Unidos.
Liderado por Carlos Guedes, professor na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto e ex-docente do curso de Música Electrónica e Produção Musical, dele faz parte Rui Dias, atual coordenador daquela licenciatura da Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Ao projeto, em que são parceiros a Casa da Música, a YDreams e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, juntam-se outros investigadores da Universidade do Texas em Austin e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
“Muitas aplicações ainda seguem paradigmas que vêm do hardware e do software. Por isso, vemos ainda muitos pianos e guitarras virtuais, em que temos uma aplicação que tenta fazer aquilo que os instrumentos acústicos fazem. O mais interessante é aquilo que não se pode fazer com um instrumento acústico ou com um software tradicional, usando rato e teclado”, esclarece o também docente.
“São essas potencialidades – multi-toque, acessibilidade e rapidez – que podem ser mais interessantes de explorar. Se unirmos todos os conhecimentos entre várias áreas do multimédia ligadas a interfaces, ergonomia ou usabilidade, podemos ter produtos completamente inovadores.”
A ferramenta interativa para smartphones, que em breve estará à venda na App Store, a loja de aplicações da Apple, prepara-se para concorrer no vasto mercado das aplicações, servindo-se da versatilidade destes dispositivos, com múltiplas áreas de utilização, do didático ao meio escolar.
“O tipo de algoritmos e software utilizados neste projeto são parte dos conteúdos de algumas disciplinas neste curso. Gostava muito que isto fosse uma ferramenta corrente. Se os alunos estivessem disponíveis, era possível já a estarmos a utilizar diariamente”, admite o coordenador da licenciatura da ESART.
O protótipo de GimmeDaBlues foi desenvolvido em Max/MSP e convertido para Objective-C a linguagem do iOS, o sistema operativo dos dispositivos móveis da Apple. Os músicos, designers e programadores, estudantes do programa doutoral em Media Digitais, estão agora a trabalhar na segunda versão, a qual deverá permitir ligar vários dispositivos e poderá vir a ser apoiada pelo Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento.
Jorge Costa (texto, imagem e edição) Zon, Kinetic (arquivo)
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